domingo, 18 de março de 2012

LITURGIA DIÁRIA - 19/03/2012


 

Tema do dia

Festa de São José

Javé falou a Natã. «Vá dizer a Davi: eu exaltarei a sua descendência, e aquele que vai sair de você é que vai construir uma casa para o meu nome. Serei para ele um pai e ele será um filho. E o seu trono será para sempre». (2Sm 7,4-5a.12-14a.16)

Oração para antes de ler a Bíblia 


Meu Senhor e meu Pai! Envia teu Santo Espírito para que eu compreenda e acolha tua Santa Palavra! Que eu te conheça e te faça conhecer, te ame e te faça amar, te sirva e te faça servir, tlouvte faça louvar por todas as criaturas. Fazei, ó Pai, que pela leitura da Palavra os pecadores se convertam, os justos perseverem na graça e todos consigamos a vida eterna. Amém.

Branco
São José, esposo de Nossa Senhora,
Solenidade


Primeira leitura (2º Samuel 7,4-5a.12-14a.16)
Segunda-Feira, 19 de Março de 2012
São José, Esposo da Virgem Maria

Leitura do Segundo Livro de Samuel.

Naqueles dias, 4a Palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: 5a“Vai dizer ao meu servo Davi: ‘Assim fala o Senhor: 12Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. 13Será ele que construirá uma casa para o meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real.14aEu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. 16Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre’”.

- Palavra do Senhor.
- Graças a Deus.


Salmo (Salmos 88)
Segunda-Feira, 19 de Março de 2012
São José, Esposo da Virgem Maria

— Eis que a sua descendência durará eternamente.
— Eis que a sua descendência durará eternamente.

— Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor, de geração em geração eu cantarei vossa verdade! Porque dissestes: “O amor é garantido para sempre!” E a vossa lealdade é tão firme como os céus.
— “Eu firmei uma Aliança com meu servo, meu eleito, e eu fiz um juramento a Davi, meu servidor. Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem, de geração em geração garantirei o teu reinado!”
— Ele, então, me invocará: “Ó Senhor, vós sois meu Pai, sois meu Deus, sois meu Rochedo onde encontro a salvação!” Guardarei eternamente para ele a minha graça e com ele firmarei minha Aliança indissolúvel.


Segunda leitura (Romanos 4,13.16-18.22)
Segunda-Feira, 19 de Março de 2012
São José, Esposo da Virgem Maria

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos.

Irmãos, 13não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência.
16É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abraão, que é o pai de todos nós. 17Pois está escrito: “Eu fiz de ti pai de muitos povos”. Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. 18Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua prosperidade”. 22Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça.

- Palavra do Senhor.
- Graças a Deus.


Evangelho (Mateus 1,16.18-21.24a)
Segunda-Feira, 19 de Março de 2012
São José, Esposo da Virgem Maria

José recebe o anúncio

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

16Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo.18A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo.20Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. 24aQuando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!

OU (Escolhe-se um dos evangelhos)

Evangelho (Lc 2,41-51a)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor!

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. 45Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. 46Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas.48Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”.
49Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 50Eles, porém, não compreenderam as Palavras que lhes dissera. 51aJesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente.

- Palavra da Salvação.
- Glória a vós, Senhor.


Oração para depois de ler a Bíblia


Dou-Te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação; peço-Te ajuda para colocá-los em prática. Minha Mãe Imaculada,  meu protetor São José e Anjo da minha guarda, intercedem todos por mim. Amém.

BOM DIA

 


 


 

SEGUNDA-FEIRA - Uma linda semana para você!

 

 

 

Preces – IV Domingo da Quaresma – Ano B


Sacerdote: Irmãos e irmãs, somos o povo do Senhor e o rebanho que Ele conduz. Nessa confiança, dirijamos a Deus as súplicas de nossa comunidade:

TodosDai-nos, Senhor, a vossa paz!
1. “Nos sentávamos chorando, com saudades de Sião” (Sl 136). Por causa da infidelidade de vosso povo, permitistes que o vosso Templo em Jerusalém fosse devastado; tornai-nos fiéis à vossa Igreja, para que ela não sofra por causa de nossos pecados. Rezemos ao Senhor.
2. “Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado”(Jo 3, 18). Renovai em nós o ardor missionário, para que, vencendo as tentações do comodismo e do respeito humano, nos dediquemos a trabalhar pela salvação de nossos irmãos. Rezemos ao Senhor.
3. “Quem pratica o mal, odeia a luz” (Jo 3, 20). Fazei com que aqueles que apoiam a destruição da religião, da família e da vida, percebam o mal que praticam e, iluminai-os com a luz da verdade para uma verdadeira conversão. Rezemos ao Senhor.
4. “O Senhor moveu o espírito de Ciro, rei da Pérsia” (2Cr 36, 22). Que os nossos governantes se permitam conduzir por vós, para que o pecado não seja promovido por leis injustas e governos covardes. Rezemos ao Senhor.
5. “Deus nos ressuscitou com Cristo” (Ef 2, 6). Fazei participantes da vida eterna os nossos irmãos e irmãs que já adormeceram em Cristo, e que um dia, todos juntos, participemos da glória da ressurreição. Rezemos ao Senhor.
Sacerdote: Senhor, que nos ensinais que a verdadeira alegria não é uma realidade oposta à Cruz, mas que nela encontra a sua força, fazei-nos seguir os passos de vosso Filho e com Ele nos entregarmos a vós num ato sublime de amor. Por Cristo, nosso Senhor.
Todos: Amém.

Homilia de D. Henrique Soares da Costa – IV Domingo da Quaresma – Ano B


2Cr 36,14-16.19-23

Sl 136

Ef 2,4-10

Jo 3,14-21

“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Is 66,10s). Caríssimos em Cristo, estas palavras de Isaías dão o tom da liturgia deste Domingo, chamado pela liturgia de Domingo Laetare – Domingo “Alegra-te!” No meio da Quaresma, na metade do caminho para a a celebração da Ressurreição do Senhor, a Igreja nos convida à alegria pela aproximação da Santa Páscoa. Daí hoje a cor rosa e as flores na igreja. “Alegra-te, Jerusalém!” – Jerusalém é a Igreja,é o Povo santo de Deus, o novo Israel, é cada um de nós… Alegremo-nos, apesar das tristezas da vida, apesar da consciência dos nossos pecados! Alegremo-nos, porque a misericórdia do Senhor é maior que nossa miséria humana!
Como o povo da Antiga Aliança, também nós tantas vezes somos infiéis – já devíamos ter visto isso claramente a essa altura da Quaresma! É trágico, na primeira leitura, o resumo que o Livro das Crônicas traçou da história de Israel: “Todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs. O Senhor Deus dirigia-lhes a palavra por meio de seus mensageiros, porque tinha compaixão do seu povo. Mas, eles zombavam dos enviados de Deus, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não teve mais jeito”. Com estas palavras dramáticas, o Autor sagrado nos explica o motivo do terrível e doloroso exílio da Babilônia: Israel fez pouco de Deus, virou-lhe as costas; por isso mesmo, foi expulso do aconchego do Senhor na Terra que lhe fora prometida, perdeu a liberdade, o Templo, a Cidade Santa, e tornou-se escravo no Exílio de Babilônia. Aqui aparece toda a gravidade do pecado, que provoca a ira de Deus! É sempre essa a conseqüência do pecado: o exílio do coração, a escravidão da vida! A Escritura nos ensina, caríssimos, que Deus nunca faz pouco do nosso pecado, nunca passa a mão na nossa cabeça, jamais faz de conta que não pecamos! Jamais despensa de modo leviano as nossas infidelidades! E por quê? Porque realmente nos ama, nos leva a sério, faz conta de nós! Ora, o pecado, afastando-nos de Deus, nos desfigura e nos faz perder o rumo e o sentido da existência. Por isso mesmo, causa a ira de Deus! Pois bem, o Senhor levou, então, seu povo para o terrível deserto do Exílio para corrigi-lo e fazê-lo voltar de todo o coração para Aquele que é seu único bem, sua verdadeira riqueza – aquele que é o seu Deus! É por misericórdia que ele corrige Israel, por misericórdia que nos corrige: “Pois o Senhor não rejeita para sempre: se ele aflige, ele se compadece, segundo sua grande bondade. Pois não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem” (Lm 3,31-33). Deus é amor e misericórdia. A leitura do Livro das Crônicas nos mostrou que, uma vez Israel convertido, corrigido, o Senhor fá-lo voltar para a Terra sempre prometida. Sim, efetivamente, “não é de bom grado que ele humilha e que aflige os filhos do homem”.
Caríssimos, esta mesma idéia que tantas vezes aparece no Antigo Testamento, cumpre-se de modo definitivo em Cristo Jesus. Hoje, o Senhor, com palavras comoventes, explica a Nicodemos a sua missão: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.Porque “estávamos mortos por causa de nossos pecados”, Deus, na sua imensa misericórdia, nos deu a vida no seu Filho único. Vede, irmãos: há duas realidades que são bem concretas na nossa existência. Primeiro, a realidade do nosso pecado. Nesta metade de caminho quaresmal, é preciso que tenhamos a coragem de reconhecer que somos pecadores, que temos profundas quebraduras interiores, paixões desordenadas, desejos desencontrados que combatem em nós… Quantas incoerências, quantos fechamentos para Deus e para os outros, quantas resistências à graça, quantas máscaras! A humanidade é isso! Não somos bonzinhos! Somos todos feridos, todos doentes, todos pecadores, todos necessitados da salvação! Mas, ao lado dessa realidade tão triste, há uma outra: Deus não se cansa de nós; estende-nos a mão para nos tirar do nosso atoleiro e nos salvar! Essa mão estendida é o seu Filho Jesus! Deus amou tanto o mundo, levou-nos tão a sério, que entregou o seu Filho, o Amado, o Único, o Santo! Grande o nosso pecado, imensa a misericórdia de Deus em Cristo; grande a nossa treva, imensa a Luz de Deus que nela brilhou em Cristo; grande o nosso egoísmo; imenso o amor de Deus manifestado em Cristo; grande a nossa morte; imensa a Vida que nos foi dada em Cristo Jesus, nosso Senhor!
Amados em Cristo, a grande tentação de nossa época é fazer pouco de Deus e, cinicamente, mascarar nosso pecado. Quantos cristãos adulteram, roubam, fornicam, abortam, negligenciam seus deveres para com Deus e com a Igreja, desobedecem aos mandamentos, e não estão nem aí. É um espírito de descrença, de falta de atenção e delicadeza para com o Senhor. Vemos isso em tanta gente de Igreja… Aqueles que nos corrigem são chamados logo de reacionários, fechados, sem misericórdia, duros, insensíveis para o mundo atual… E no entanto, a Palavra do Senhor é clara: é necessário que fixemos o olhar em Cristo que se entregou por nós e reconheçamos a gravidade e a concretude do nosso pecado! Volta, Israel! Volta, Igreja de Cristo! Volta, povo do Senhor! Voltemos, irmãos e irmãs! Em Cristo Jesus, nosso Salvador, “Deus quis mostrar a incomparável riqueza da sua graça!” Não brinquemos com o amor de Deus, não recebamos em vão a sua correção!
Recordemos que hoje, no Evangelho, após mostrar o imenso amor de Deus pelo mundo, a ponto de entregar o Filho amado, Jesus nos previne duramente: Quem nele crê, não é condenado, mas, quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. Ora, caríssimos, acreditar no nome de Jesus não é aderir a uma teoria, mas levá-lo a sério na vida pelo esforço contínuo de conversão à sua Pessoa divina e à sua Palavra santa! Crede, irmãos, crede, irmãs! Crede não com palavras vãs! Crede com o afeto, crede com o coração, crede com os lábios, mas, sobretudo, crede com as mãos, com os vossos atos, com a prática da vossa vida! De verdade creremos na medida em que de verdade nos abrirmos para a sua luz; pois “o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz”.
Que o Senhor nos dê a graça de ver realisticamente nossos pecados, reconhecê-los humildemente e confessá-los sinceramente, para celebrarmos verdadeiramente a Páscoa que se aproxima e dela participar eternamente na glória do céu. Amém.
D. Henrique Soares

Homilia do Mons. José Maria – IV Domingo da Quaresma – Ano B


A Cruz e a Alegria

O Evangelho (Jo 3, 14-21) nos apresenta a conclusão do diálogo de Jesus com Nicodemos: “ Como Moisés levantou  a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 14-16).
No deserto, os hebreus olhavam a serpente levantada por Moisés como sinal de cura e libertação. Faz lembrar a cruz onde foi levantado o Filho do Homem. Da Cruz de Jesus brota a vida e a salvação para todos. Ao olhar com fé para esse sinal, ficamos curados…
Nesse tempo de conversão, que é a Quaresma, meditemos na Cruz, na alegria da Cruz! É sempre o mesmo júbilo de estar com Cristo: “Somente d’Ele é que cada um de nós pode dizer com plena verdade, juntamente com S. Paulo: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gal 2,20). Daí deve partir a vossa alegria mais profunda, daí deve advir também a vossa força e o vosso ponto de apoio. Se, por desgraça, deveis encontrar amarguras, padecer sofrimentos, experimentar incompreensões e até cair em pecado, que o vosso pensamento se dirija rapidamente para Aquele que vos ama sempre e que, com o seu amor ilimitado, faz vencer todas as provas, preenche todos os nossos vazios, perdoa todos os nossos pecados e nos impele com entusiasmo para um caminho novamente seguro e alegre” (Beato Papa João Paulo II).
A Igreja quer recordar-nos que a alegria é perfeitamente compatível com a mortificação e a dor. O que se opõe à alegria é a tristeza, não a penitência!Vivendo com profundidade o tempo da Quaresma que conduz à Paixão – e portanto à dor -, compreendemos que aproximar-se da Cruz significa também aproximar-se do momento da Redenção, e por isso a Igreja e cada um dos seus filhos se enchem de alegria. A mortificação que procuramos viver nestes dias não deve ofuscar a nossa alegria interior, mas, pelo contrário, deve fazê-la crescer, porque está prestes a realizar-se essa prova máxima de amor pelos homens que é a Paixão, e é iminente o júbilo da Páscoa. Por isso queremos estar muito unidos ao Senhor, para que também na nossa vida se repita o mesmo processo da sua: chegarmos, pela sua Paixão e Cruz, à glória e à alegria da sua Ressurreição.
Os sofrimentos e as tribulações acompanham todos os homens na terra, mas o sofrimento, por si só, não transforma nem purifica; pode até causar revolta e ódio. Alguns cristãos separam-se do Mestre quando chegam até a Cruz, porque esperavam uma felicidade puramente humana, que estivesse isenta de dor e acompanhada de bens naturais.
Para O amarmos com obras, o Senhor pede-nos que percamos o medo à dor, às tribulações, e o procuremos onde Ele nos espera: na Cruz. A nossa alma ficará então mais purificada e o nosso amor mais forte. Então compreenderemos que a alegria está muito perto da Cruz. Mais ainda: que nunca seremos felizes se não amarmos o sacrifício.
Essas tribulações que, à luz exclusiva da razão, nos parecem injustas e sem sentido, são necessárias para a nossa santidade pessoal e para a salvação de muitas almas. No mistério da corredenção, a nossa dor, unida aos sofrimentos de Cristo, adquire um valor incomparável para toda a Igreja e para toda a Humanidade. A dor, quando lhe damos o seu verdadeiro sentido, quando serve para amar mais, produz uma paz íntima e uma profunda alegria. Por isso, em muitas ocasiões, o Senhor abençoa-nos com a Cruz.
Assim temos que percorrer “o caminho da entrega: a Cruz às costas, com um sorriso nos lábios, com uma luz na alma” (São Josemaria Escrivá, Via Sacra, II º est.).
Sigamos Jesus com alegria, até Jerusalém, até o Calvário, até a Cruz. Além disso, “não é verdade que, mal deixas de ter medo à Cruz, a isso que a gente chama de cruz, quando pões a tua vontade em aceitar a Vontade divina, ès feliz, e passam todas as preocupações, os sofrimentos físicos ou morais?” (São Josemaria Escrivá, Via Sacra, IIº est.).
Mons. José Maria Pereira

Homilia do Pe. Françoá Costa –IV Domingo da Quaresma – Ano B


Entre a luz e as trevas

Temos a impressão de que a maior parte da nossa vida passa-se entre a luz e as trevas. Aquela antiga expressão que afirmava que há pessoas que mantêm duas velas acessas, uma ao diabo e outra a S. Miguel, parece encontrar o seu correlativo na vida de um filho de Deus que procura ser bom e encontra frequentemente as dificuldades da jornada. Uma coisa é bem certa: é preciso apagar a vela ao diabo!
No interior do ser humano trava-se uma batalha constante e que poucas vezes dá trégua. Não é à toa que somos chamados “Igreja militante”, isto é, a família de Deus que luta, que combate, que quer viver sempre na luz ainda que as trevas queiram entrar no seu interior. “Aquele que pratica a verdade, vem para a luz” (Jo 3,21). Observemos que a passagem citada não diz “aquele que fala a verdade”, mas “aquele que pratica a verdade”. O que seria então “praticar” a verdade? Poderíamos resumir em poucas palavras: “viver conforme a verdade”.
Viver segundo a verdade de Deus é adaptar a nossa maneira de pensar, querer, sentir e agir à maneira de Jesus, pois ele é a verdade. Não nos esqueçamos de que no cristianismo, a verdade não é simplesmente um argumento, a verdade é uma pessoa: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Viver conforme a verdade de Deus é pensar a própria vida segundo o plano de Deus que se manifestou suficientemente no mistério da Palavra de Deus que se encarnou para a nossa salvação.
Mas, como sabemos e experimentamos, não basta saber essas coisas, é preciso lutar para propor-se seriamente o seguimento de Jesus-Verdade. O ambiente no qual nos movemos oferece muitas atrações que não nos conduzem a bom porto, que não nos levam pelo caminho da salvação. O pecado frequentemente se assemelha a uma maçã que, estando podre por dentro, apresenta-se com belíssimo aspecto, bem atraente aos sentidos. O que fazer? Pedir a luz de Deus para vermos que tal fruta está podre, que não alimenta. O Evangelho de hoje ressalta justamente isso: andar na luz, que é sinônimo de andar na verdade.
O cristão tem que ser consciente de que sem a luz da fé na inteligência e sem a caridade na vontade, não fará o bem que almeja. Ninguém pode mover-se sobrenaturalmente sem a graça de Deus. É impossível! A nossa natureza, depois do pecado original, ficou estragada (não totalmente), posteriormente foi resgatada, e, contudo, nela permanece a ignorância e a concupiscência. Essas duas realidades são as que obscurecem a nossa inteligência e debilitam a nossa vontade. A fé vem para curar a ignorância e o amor de Deus vem para dar força à nossa vontade.
Nesta quaresma, tempo de conversão, é preciso ter em conta essa realidade: quem vive habitualmente na graça de Deus não está livre de todas as tentações, também ele se encontra exposto às trevas do pecado. Nunca percamos o bom senso: somos fracos, precisamos da luz e do amor de Deus. Não sejamos ingênuos: fujamos das ocasiões de pecados! Nada dizer: “não importa, eu resisto, pois eu sou forte”. Quantos heróis já foram derrotados por causa de uma confiança exagerada nas próprias forças!
Pe. Françoá Costa

Comentário Exegético – IV Domingo da Quaresma – Ano B


EPÍSTOLA (Ef 2, 4-10)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)
INTRODUÇÃO: Esta perícope é um hino à misericórdia divina que constitui uma declaração dogmática da forma em que Deus planejou a nossa redenção: A fé é a única condição que exige do homem um Deus que é todo amor e misericórdia. Paulo o define como rico na mesma pelo imenso amor que nos manifestou. Não escolheu unicamente um homem para uni-lo à sua divindade, mas nesse homem, Deus vê todo homem que acredita ser seu salvador; e assim, juntamente com ele, os fará partícipes de sua glória, ou se quisermos de sua família. Somos filhos no Filho, como diz João: Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome (Jo 1, 12).
A MISERICÓRDIA DIVINA: Pois o Deus sendo rico em misericórdia pelo muito amor dele que nos amou (4), e estando nós mortos pelas culpas, deu-nos a vida por Cristo: de graça sois salvos (5). Deus autem qui dives est in misericordia propter nimiam caritatem suam qua dilexit nos. Et cum essemuador que um presens mortui peccatis convivificavit nos Christo gratia estis salvati. RICO [plousios<4145>=dives] é um adjetivo que indica abundância de bens materiais, especialmente de posse de moedas com as que manifestarem suas economias, como em Mc 12, 41: Estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos (plousioi) deitavam muito. Temos o relato do jovem que era muito rico [plousios sfodra] (Lc 18, 23) porque tinha muitas propriedades. EM MISERIDÓRDIA [en eleei<1656>=in misericordia]: eleos sigifica boa vontade para com o miserável  ou aflito, unida ao desejo de socorrê-lo. No  hebraico, é o Hesed <02617> que a Setenta traduz por eleos como em l Cr 19, 2: Então disse Davi: Usarei de benevolência [hesed=eleos] com Hanum, filho de Naás, como seu pai usou de benevolência [hesed=eleos] comigo. No AT hesed está frequentemente unida a emeth formando uma expressão que define o caráter divino com respeito ao homem no seu estado de queda, como lemos em Gn 24, 27: Bendito seja o SENHOR Deus de meu senhor Abraão, que não retirou a sua benevolência e a sua verdade de meu senhor. A frase Paulina é uma cópia dessa definição que Jahveh deu de si mesmo em Êx 34, 6: Eu sou o Senhor! O Senhor Deus misericordioso e compassivo, paciente e grande em benevolência e verdade [we rabhesed we emeth= polyeleos kai alëthinos]. A frase hesed we emeth se repete continuamente no AT para ser acolhida como definição do Filho, no prefácio de João 1 14: E vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade [plërës charitos hai alëtheias] cuja tradução mais correta seria: cheio de benevolência e fidelidade. Esse Salvador que foi um presente de Deus para os homens de sua eudokias [benevolência] (Lc 2, 14). Ou se quisermos essa benevolência é entranhas de mãe, que J. P. II explica em sua primeira encíclica Dives in misericordia, influenciado pela mensagem de S Faustina Kowalska para o terceiro milênio, segundo mandato do próprio Jesus, escrito no Diário da Divina Misericórdia, donde a futura santa narra as revelações de Jesus para o século futuro. E Paulo continua afirmando que essa misericórdia não foi uma ideia abstrata; mas se realizou na prática através do amor. Porque estávamos nós mortos pelas CULPAS [paraptömasin<3900>=peccatis]. A palavra paraptöma significa originalmente cair ao lado de alguém. Mas nunca é tomada neste significado. Porém, no significado figurado, que é o usual, denota queda, desvio da verdade e da honestidade: logo uma transgressão, que se diferença de amartëma [pecado] em que este é dirigido contra a lei de Deus e paraptöma pode ser contra qualquer lei ou mandato, como no Pai nosso: se perdoardes aos homens as suas ofensas [paraptömata=debita] também vosso Pai celestial vos perdoará a vós (Mt 6, 14). No lugar paralelo de Lucas (11, 4) em vez de paraptomata temos amaratiai [<266>=peccata.[Pois apesar dos pecados, transgressões ou desobediências dos homens Deus nos amou- dirá Paulo. E como prova desse amor, nos deu vida juntamente com Cristo. Mas o mais admirável é que essa predileção foi DE GRAÇA [chariti<5485>=gratia]: é o dativo de charis de significado favor, mercê,  dom gratuito não devido, como lemos em Lc 1, 30: Não tenhas medo, Maria, pois foste favorecida por Deus. SOIS SALVOS [sesösmenoi<4982>=estis salvati] e o particípio perfeito do verbo sözö: resgatar, salvar, preservar, como vemos em Mt 18, 11: o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido. A salvação é da morte pelo pecado porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1, 21), recebendo por isso o nome de Jesus [Salvador]. Morte segundo Paulo como consequência do pecado segundo o que escreve Paulo: Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte (Rm 5, 12). Morte que será definitiva e que no apocalipse é chamada de segunda morte caso não existir arrependimento (Ap 20, 6). Esta salvação não é devida a méritos ou obras boas mas é uma mercê gratuita de Deus.
RESSURREIÇAO E GLORIFICAÇÃO: E nos ressuscitou com Ele e nos sentou no mais altos céus em Cristo Jesus (6). Et conresuscitavit et consedere fecit in caelestibus in Christo Iesu. Como efeito necessário a esta salvação, temos duas mercês: ressurreição e glória juntamente com Cristo, como produto de sua vitória sobre o pecado e a morte, esta a última inimiga a ser derrotada (1 Cor 15, 16). Para isso, primeiro manifestou o seu poder ressuscitando Cristo dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus (Ef 1, 20). E como somos filhos no Filho (Jo 1, 12) temos o mesmo destino deste último: ressurreição e trono nos céus. Esse trono será especial para os doze apóstolos como prometeu Jesus: Quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel (Mt 19, 28).
COMO MANIFESTAÇÃO: Para manifestar nas idades vindouras a excessiva riqueza da sua caridade em benignidade por nós em Cristo Jesus (7). Ut ostenderet in saeculis supervenientibus abundantes divitias gratiae suae in bonitate super nos in Christo Iesu. MANIFESTAR [endeixëtai<1731>=ostenderet] aoristo subjuntivo de endeiknymi de significado demonstrar, expor, exibir, revelar, manifestar. IDADES [aiösin<165>=saeculis] no grego, dativo plural de aiön, período longo de tempo, era, idade, que no latim é traduzido por saeculus ou sáeculi em plural e que em vernáculo conserva a tradução latina como séculos. Ao falar de vindouros indica que é uma demonstração futura definitiva; e assim o traduz para sempre a Portuguesa Corrigida Fiel (ACF). A manifestação é da RIQUEZA [plouton] que concorda com o início desta perícope [rico em misericórdia] a qual a chama de EXCESSIVA [yperballonta<5235>=abundantes] particípio presente de yperballö de significado ultrapassar como em 2 Cor 3, 10: A glória que brilhou no passado não se compara com a glória atual, que é muito maior. Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça (idem 9). Daí a tradução excessiva que outros traduzem por suprema. BENIGNIDADE [chrëstotës<5544>=bonitas]. É o que encontramos em Tt 3, 4: Quando apareceu a benignidade [chrëstotës] e amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens. Como vemos, pela citação de 2 Cor 3, 9, Paulo distingue entre o ministério de Moisés que ele chama de condenação [kayakrideös] e o da justiça [dikaiosynës]. O primeiro não levava à vida e ao perdão. O segundo é o que dá a justificação ou justiça, transformando o homem em justo diante de Deus. E essa justificação é salvação, vida e glorificação em Cristo Jesus.
SALVOS POR GRAÇA: Porque por mercê fostes salvos por meio da fé e isto não de vós, presente de Deus (é) (8). Gratia enim estis salvati per fidem et hoc non ex vobis Dei enim donum est. MERCÊ [charis<5485>=gratia]. Paulo não deixa de afirmar repetidamente que  justificação e suas consequências, ressurreição e glorificação, têm como base a bondade divina, que gratuitamente nos salva por amor  que tem como raiz o sacrifício do Filho e não as obras da lei. É pela FÉ no batismo e não pela circuncisão. Eis uma amostra entre tantas: Pela sua bondade imerecida, Deus os justifica gratuitamente por meio de Jesus Cristo que os libertou do poder do pecado (Rm 3, 24). Porque estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos. Ef 2,5). E finalmente, em 2 Tm 1,9: Nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos. A única condição é que confiemos na sua misericórdia, ou seja, a FÉ [pistis<4102>] a que Jesus demandava para curar o doente: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê (Mc 9, 23). Assim dirá Jesus à mulher hemorroisa: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou; vai em paz (Lc 8, 48). Dirá Paulo: Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós (Rm 4, 16). Tudo o qual confirma em Rm 5.2: Foi por meio de Cristo e pela fé que nós conseguimos esta harmonia com Deus que agora temos. E isso dá-nos a maravilhosa esperança de tomar parte na glória de Deus. Se Deus unicamente pede a fé ou confiança no seu poder, realmente é um PRESENTE [döron<1435>=donum] dádiva gratuita de Deus. Ele oferece o perdão e salvação. De nossa parte pede fé, confiança e entrega a essa proposta divina completamente gratuita de salvação. É, pois, um presente totalmente gratuito de Deus que aceitamos pela fé no momento do batismo.
SEM OBRAS: Não por obras, para que ninguém se glorie (9). Non ex operibus ut ne quis glorietur. Essas obras são as obras da Lei [Torah] como vemos em Rm 3, 20: Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei. E Paulo explica o efeito da Lei: Pela lei vem o conhecimento do pecado (idem). Para deduzir: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Rm 3, 28). E em Rm 11, 6 declara: Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra. E uma vez afirmada a gratuidade da justificação, Paulo se atreve a estabelecer a razão dessa graça: Para que ninguém se glorie, como ele escreve em 1 Cor 29-31: Para que nenhuma carne se glorie perante ele…. como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor (Jr 9, 23-24). Pois Ele nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2 Tm 1,9). Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo (Tt 3, 5).
CRIADOS EM CRISTO: Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas (10). Ipsius enim sumus factura creati in Christo Iesu in operibus bonis quae praeparavit Deus ut in illis ambulemus. Paulo explica agora a intervenção da providência como se fosse uma nova criação feita por Cristo Jesus. FEITURA [poiëma<4161>=factura] é uma obra, uma criatividade ou produção como diz Paulo em At 17, 28: Somos também sua geração [genos] e desta semelhança com Deus (a sua imagem e semelhança em Gn 1, 26) somos feitos novas CRIATURAS [ktisthentes<2936>=creati] em Cristo Jesus. Ktisthentes é o particípio aoristo do verbo ktizö de significado criar como em Mc 13, 19 Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação [ktiseös] , que Deus criou [ektisen], até agora. Paulo, pois, vê uma nova criação na figura de Jesus Cristo, a cuja imagem é feito o cristão como diz Paulo: Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós ( Gl 4:19). Com efeito –dirá Paulo- todos os que foram batizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo. E não só qualidades anímicas, mas também corpóreas: Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? (1 Coríntios 6, 15). João fala de novo nascimento: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (Jo 3, 3). Para esse novo homem, Deus preparou boas obras, segundo o que Paulo afirma: Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8, 28).

EVANGELHO (Jo 3, 14-21)

DIÁLOGO COM NICODEMOS

( Pe Ignácio, dos padres escolápios)
NICODEMOS: Provém do grego e significa vitorioso sobre o povo. Impressiona que sendo um fariseu e contado como um dos líderes [archön <758>] dos judeus [princeps Iudaeórum], mestre em Israel, tenha que se encontrar com Jesus de modo reservado. Nem todos os fariseus foram raça de víboras. O próprio Paulo se gloria de pertencer a essa classe. Não está disposto a se desprender de tudo o que foi sua vida anterior, como a Lei, a Tradição, sua posição dentro do Sinédrio; mas a postura de Jesus no templo e os fatos extraordinários de Jesus o deixam desorientado. O único evangelista que cita o nome é João e além desta perícope sai em 7, 50-52 defendendo a pessoa de Jesus que devia ser julgado antes de ser condenado, e em 19, 39-40 ajudando a José de Arimateia no sepultamento de Jesus. Nicodemos está convencido que o poder de Jesus provinha de Deus sendo que sua mensagem era a palavra de um profeta. Nicodemos, insatisfeito com a atuação dos colegas no Sinédrio, quer saber dos lábios de Jesus, as novas que ele anunciava. Sem dúvida que a sua pergunta era como entrar no Reino que Jesus proclamava. A resposta de Jesus foi desconcertante: Precisava-se de um novo nascimento. E então o douto fariseu fica ainda mais confundido: Como pode isto acontecer? (Jo 3, 9). No fim da entrevista, o mestre Nicodemos confia sua vida ao Mestre Jesus no qual busca a Verdade para encontrar o Caminho que o conduza à Vida. O critério de Nicodemos é o único a se seguir em contato com Deus: A Transcendência, ou se quisermos traduzir em palavras mais inteligíveis, a Sobrenaturalidade dos fatos dos quais somos testemunhas oculares, ou ouvintes diretos dessas testemunhas, constituídos em ministros da Palavra, como narra Lucas no prólogo (Lc 1, 1). Essa sobrenaturalidade dos fatos demonstra a existência de uma causa superior à Natureza. Uma causa, razão de todas as causas ou causa causantis como dirá a escolástica. Esses fatos constituem os verdadeiros sinais dos tempos (Mt 16, 3) que encontraremos na vida de cada um de nós se tomarmos tempo para investigar e refletir. {nota: a Bíblia de Jerusalém diz que esses sinais são os milagres que Jesus opera}. Anteriormente a esta perícope de hoje Nicodemos fez três perguntas a Jesus nos versículos 2, 4 e 9: A verdade como Mestre; como é possível o novo nascimento e como é o nascimento no Espírito. A todas elas responde Jesus com uma ênfase extraordinária: Em verdade, em verdade eu te digo.
A SERPENTE: Pois assim  como Moisés içou a serpente no deserto, da mesma forma será içado o Filho do Homem (14). Et, sicut Móyses exaltávit serpéntem in desérto, ita exaltári opórtet Fílium hóminis. IÇOU: O verbio usado em grego é ypsôsen[<5312>=exaltavit ] alçar, erguer, içar (enarbolar espanhol)  não um simples levantar, mas um mostrar no alto para que todos pudessem ver o objeto ou pessoa que merecia tal honra ou reverência. Sabemos muito bem que a serpente que estava na arca teve que ser destruída, pois a reverência se tornou adoração com o tempo, apelidando-a de Noestã [a feita de bronze] (2 Rs 18, 4). Em Nm 21, 9 se diz que Moisés colocou a serpente sobre um poste ou haste. Porém, nos targuns [glosas em aramaico do texto hebraico] a serpente foi colocada num lugar elevado. O grego usa a haste  como se fosse o pau de um estandarte, que também é usado para sinal. Logo o alçamento de Jesus é o sinal e o estandarte da nova Aliança. É o sinal do Filho do homem que Mateus refere como estandarte da parousia (Mt 24, 30), que será o sinal da derrota para os inimigos que não o aceitaram em vida; e vitória e gozo para os que em vida viveram à sua sombra. Um midrash [explicação popular com propósitos didáticos], sobre o assunto da serpente, diz: Tinham um símbolo de salvação como memorial do mandato de tua Lei. Com efeito: o que se voltava para ele sarava, não em virtude do que via, mas graças a ti, Salvador de todos. E continua: olhar a serpente significa voltar o coração para a memrá [palavra] de Deus. {nota: ver memrá em Exegese número 68 de presbíteros.com.br}. O próprio João evangelista declara em 12, 32: Porque se  eu for alçado [mesmo verbo ‘ypsoô] da terra, arrastarei todos a mim. Et ego, si exaltátus fúero a terra, ómnia traham ad meípsum. Evidentemente no segundo caso tratava-se da morte na cruz, como comenta o mesmo evangelista, indicando de que morte deveria morrer. DEVE: Um segundo verbo cuja importância deve ser aclarada é o verbo dei <1163>  um impessoal que é traduzido por must [é necessário] ao inglês e que o latim traduz por oportet [é conveniente, sem excluir a necessidade]. A tradução IT diz: deve essere innalzato indicando uma obrigação tanto natural como moral. O grego distingue entre chrê <5534> uma necessidade física, enquanto dei denota essa obrigação que provém de um desígnio divino, como é nosso caso. Cremos nisso porque está mais de acordo com o pensamento que Jesus quis transmitir a Nicodemos. O FILHO DO HOMEM: é uma expressão semítica que em princípio designa um membro da comunidade humana. No livro de Daniel se transforma numa figura simbólica que representa o povo dos santos de Jahvé (Dn 7, 18+) no seu triunfo sobre os reinos pagãos. Isto não impede que se concentre na figura do chefe, ou rei e que adquira um valor individual que tem no judaísmo intertestamentário, especialmente no livro de Henoc. Aparece no NT sempre em boca de Jesus, talvez sintetizando o mistério de sua individualidade ao mesmo tempo humana e divina. Porém muitas vezes está no sentido do eu ou a gente como se diz em linguagem de modesta humildade. É neste sentido de eu que aparece aqui no diálogo de Nicodemos, pois não existe relação alguma com lugares que possam relacioná-lo com a passagem de Daniel e é mais apropriado de Is 51, 12: quem te julgas para temer o filho do homem cujo destino é o da erva?
FÉ E VIDA: a fim de que todo o que crê nele não seja destruído, mas tenha vida eterna (15). Ut omnis qui credit in ipsum non péreat, sed hábeat vitam aetérnam.  DESTRUIDO: O verbo perecer, apollymi <622> significa seja destruído que traduzem por perecer como voz media, que tanto o latim como as traduções vernáculas adotam. O verbo é usado pelos quatro evangelistas no sentido de matar, ou destruir, perecer e até perder o caminho como no caso de uma ovelha desgarrada (Mt 15, 24 e 18, 14). A  vida, quando declarada eterna, é a que Jesus dá como garantia; pois dela é sua ressurreição, suprema prova e penhor; e se antecipa neste mundo com a união pelo batismo e fé com sua pessoa (Rm 6, 4) e que João afirma que é a vida do Logos que gozava junto com o Pai e que foi manifestada no homem Jesus (1 Jo 1, 2). Estando esta vida no Filho, quem tem o filho tem a vida e quem não tem o filho de Deus, não tem a vida. E essa vida é a dos que creem no nome [pessoa] do Filho de Deus (1 Jo 5, 11-12). Esta vida eterna é a primeira vez que o evangelista usa como expressão e que afirma seria o dom do Espírito para todos os que nele creem. A vida eterna é a vida dos filhos de Deus, vida gerada do alto, gerada pela infusão do Espírito, comunicada como fonte de vida por Jesus a todos os que nele acreditam, na sua cruz de modo especial, para alcançar a salvação, como era devolvida a saude aos que olhavam a serpente com esperança de cura.
O AMOR DO PAI: Pois desse modo amou [êgapêsen] (o) Deus o mundo até o ponto que deu o Filho dele, o unigênito, para que, todo aquele que crê  nEle, não esteja perdido, mas tenha vida eterna. Sic enim Deus diléxit mundum, ut Fílium suum unigénitum daret, ut omnis qui credit in eum non péreat, sed hábeat vitam aetérnam. AMOU: O aoristo grego êgapêsen, indica uma ação pontual intensa passada, que talvez fosse melhor traduzida por tem amado porque Jesus está descrevendo uma ação passada como é a Encarnação, que continua em sua pessoa e que terminará com a entrega de Jesus à cruz para satisfação de seus inimigos, mas na realidade para o triunfo de Jesus e dos seus como diz João em 16, 20: Em verdade vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós estareis tristes mas vossa tristeza se tornará em alegria. Por isso, Paulo afirma que poderá gloriar-se na cruz de Cristo, que representa o amor de Deus ao mundo e do qual nenhum sofrimento ou mal poderá afastá-los (Rm 8, 1-35). E tornará a afirmar: Longe esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6, 14). O MUNDO: Segundo João esta palavra tem dois sentidos diferentes. 1o) Um geral como o conjunto dos homens que vivem na terra: Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto ao Pai (16, 28). 2o) Um outro é o conjunto dos homens que estão dirigidos pelo que Jesus chama o príncipe do mundo, contrário a Jesus. Evidentemente ele era o mesmo que ofereceu a Jesus os reinos do mundo com o seu esplendor (Mt 4, 8). Por isso, dirá Jesus: Agora é quando vai ser julgado este mundo; agora o príncipe deste mundo vai ser lançado fora (Jo 16, 28). E é precisamente a este mundo inimigo, que Deus entregou seu Filho. O amor de Deus ao seu inimigo, o mundo, é uma extraordinária revelação que jamais homem algum poderia suspeitar, e que implica toda uma política ou providência revolucionária. É uma revelação básica para as atitudes homem/Deus que emolduram toda a história humana após a Encarnação. Deus dá o primeiro passo para salvar o homem dando-se integramente e sofrendo os caprichos dos piores inimigos para demonstrar que ele não tem ninguém como adversário, mas que, como Pai, todos são seus filhos. E, portanto, pune o inocente, tornando-o  pecado (2 Cor 5, 21), para não ter que castigar todos os culpados. UNIGÊNITO: [monogenês <3439>] é o unigênitus latino que aparece unicamente no evangelho de João somente nos três primeiros capítulos (1, 14.18 e 3, 16.18). Os outros evangelistas preferem o agapetós [o amado]. Talvez esta escolha de João seja totalmente propositada para debelar o demiurgos dos gnósticos como vemos em exegese no  68 de presbíteros.com.br. Com o monogenês não existe dúvida nenhuma sobre a origem de Jesus e sua vida anterior no seio do Pai, comparando seu estar dentro dele ao seio de uma mulher, no qual o sêmen se desenvolve até germinar e no futuro ser independente. A teologia dirá que esta geração não é um ato pontual, mas um ato eterno sem princípio nem fim. Nesse seio, o Logos aprendeu os planos divinos sobre a sua histórica entrada no círculo do mundo dos seres humanos. Daí sua sabedoria podendo afirmar: A Deus ninguém jamais viu; o Filho Único que está no Pai nos deu a conhecer (Jo 1, 18). E essa história humana se centra na hora em que, temida, mas desejada (Jo 12, 27), centra a sua vinda, que é um sacrifício de amor ao Pai e de misericórdia para com os pecadores. Essa hora, ao mesmo tempo em que de profunda prostração, é a hora de sua glorificação: É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado (Jo 12, 23) com uma ação que repetirá Pedro [talvez o único entre os apóstolos] segundo Jesus o prediz, e que o evangelista apostila como sendo o gênero de morte que daria glória a Deus (Jo 21, 19). A cruz é, pois, o sinal de Vitória. Poderemos apropriar todos os cristãos do título visto por Constantino antes da batalha da ponte Milvio: in hoc signo vinces [baseado neste signo vencerás]  A FÉ: João repete neste versículo a mesma conclusão do anterior como para reafirmar uma insólita proposta. Se no versículo 15 era com ocasião do exemplo da serpente, como para dizer que Deus pode fazer com o ser inteiro o que realizou com os corpos dos israelitas, agora é pelo amor de Deus que facilita enormemente a salvação. A fé no Filho como salvador é necessária para a salvação.
O ENVIO: Pois não enviou (o) Deus o Filho dele ao mundo para que condene [krinë <2919>] o mundo, mas para que se salve o mundo por ele (17).  Non enim misit Deus Fílium suum in mundum ut iúdicet mundum, sed ut salvétur mundus per ipsum. Num crescente paralelo como se fossem ambos os versos de um poema antitético com um versículo segundo, em oposição. O primeiro hemistíquio é para indicar o fim positivo do envio; o segundo, após a cesura,  declara o fim negativo. Foi enviado (1o)  para os que nele creem tenham a vida eterna e (2o) para indicar que não foi para condenar. O verbo Krinô tem dois sentidos usados indistintamente, com o significado de  julgar (1o) ou  com a acepção semântica de condenar (2o). Aqui, como na maioria dos casos dos evangelhos, o verbo Krinô deve ser tomado na acepção de condenar, pois esta é a palavra oposta a salvar e o hemistíquio a exige em comparação com o primeiro verso do dístico. E não somente Jesus não é o juiz que considera o mundo como réu, mas é o Salvador. Essa é sua missão. Daí que as últimas palavras que ele pronuncia na terra têm um valor extraordinariamente profundo: Pai perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo (Lc 23, 34). Uma reflexão a mais para terminar: a missão de Jesus não era uma missão solitária, mas solidária com o envio do Pai. Ambos estão empenhados em demonstrar que o bem sempre é mais forte que o mal e que a vitória do bem se dá na base do perdão e do acolhimento do pecador. Vence o mal com o bem que dirá S Paulo (Rm 12, 21) e donde abundou o pecado mais superabundou a misericórdia (Rm 5, 20). A lógica do amor [charis] divino é tão mais imensamente abundante que a lógica da verdade ou fidelidade [aletheia]. Assim dirá João no prólogo que no lugar da Lei [que produz naturalmente a condenação] a graça [charis] e a fidelidade [aletheia] vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17).
O JULGAMENTO: O crente nele não é condenado; mas o não crente já está condenado, porque não há acreditado no nome [onoma <3686>] do unigênito Filho (do) Deus (18). Qui credit in eum non iudicátur, qui autem non credit iam iudicátus est, quia non credit in nómine unigéniti Fílii Dei. É uma solução que salva o amor do Pai, o sacrifício do Filho e pune em seu pecado os que não querem se salvar. Rejeitar o Filho Único de Deus é rejeitar a salvação e por isso eles já são condenados. O NOME: No mundo semita o nome se identifica quase com o mesmo ser de uma pessoa ou de uma coisa. Deus revelando o seu nome revela todo o seu poder e grandeza (Gn 32, 30). Qual era o nome de Jesus? Pois o nome por excelência é o de Jesus [Salvador, ou melhor, Deus salva], porque ele salvará o seu povo de seus pecados (Mt 1, 21). A lógica da verdade evangélica é tremendamente irresistível.
COMO SERÁ ESSA CONDENAÇÃO: Esta é, pois, a condenação: porque a luz [fös <5457>] tem chegado ao mundo e amaram [ëgapësan <25>] os homens mais a escuridão [skotos <4655>] do que a luz. Porque eram más [ponëra <4190>] suas obras (19). Hoc est autem iudícium, quia lux venit in mundum, et dilexérunt hómines magis ténebras quam lucem; erant enim eórum mala ópera. Vamos explicar cada palavra, porque veremos o verdadeiro sentido sabendo o significado do conjunto. Na Bíblia no AT a palavra LUZ é a que dá origem a ação de Deus no princípio do Universo. Separou a luz das trevas (Gn 1, 3). Como tal, a luz é uma criatura, mas de tal beleza que é a imagem de Deus como verdade que ilumina o mundo e da sua bondade (Sb 7, 16). É também símbolo de vida. Tobias dirá, uma vez cego, vivo entre trevas como os mortos. Sou um vivo entre os mortos (Tb 5, 10). Os preceitos do Senhor são luz (Sl 5, 6 e Pr 6,3). Confundir o bem e o mal é trocar as trevas por luz (Is 2,5). O povo judeu, ou o profeta,  é luz das nações (Is 42, 6). O direito ou Lei do Senhor é luz dos povos (Is 51,4). Deus mora no meio da luz (Dn 2, 22). No NT a luz profetizada por Isaías é o próprio Jesus (Mt 4, 16). Os discípulos serão a luz do mundo através de seus testemunhos (Mt 5, 14). Os filhos das trevas são mais sagazes do que os filhos da luz (16, 8). O Logos encarnado é a luz: Existe a luz verdadeira que com sua vinda ao mundo ilumina todo homem (Jo 1,8) e logicamente ela é Jesus, do qual João era testemunha (Jo 17-8). Jesus solenemente afirma ser a luz do mundo para não caminhar nas trevas, mas ter a luz da vida (Jo 8, 12). Crer na luz é se tornar filho da luz (Jo 12, 36). Quem crê em Jesus não fica nas trevas (Jo 12, 46). A palavra amaram [egapesan] pode ser traduzida por preferiram, já que a pobreza da semântica hebraica não distingue os cinzas e só fala em branco e preto: amar-odiar. A razão desta preferência não é a verdade que emana da luz, mas as trevas que suscitam as obras perversas ou malvadas que eles cometem e que não aguentam a condenação que oferece a verdade da luz. A palavra ponera em plural indica uma obra feita com maldade, perversa, muito mais forte que o kakos, simples ausência do bem e presença do mal. Ponerós indica, pois, uma obstinação após uma aberração em conduta.
A PREVARICAÇÃO DAS OBRAS DO MAL: Já que todo (o) praticante de coisas desprezíveis [faula<5337>] odeia a luz e não vêm à luz, para que não reprove [esta] [elegthë<1651>] as obras dele (20). Omnis enim qui male agit, odit lucem et non venit ad lucem ut non arguántur ópera eius. O latim tem provavelmente induzido uma tradução errada. O elegthë é singular e não concorda em número com faula que é plural. Logo tem que ser a luz a que envergonhe, reprove ou acuse o tal praticante de obras que merecem o desprezo ou a censura pelos homens honestos ou não malvados. A tradução é pois todo aquele que pratica obras dignas de censura, odeia a luz e não se expõe à mesma, para que esta não o censure pelas suas obras indignas. É uma observação de simples sabedoria humana.
SEGUNDO DÍSTICO: Aquele, porém, praticante da verdade [alëtheian<225>], vêm para a luz, para que manifeste suas obras; porque são feitas em Deus (20). Qui autem facit veritátem venit ad lucem, ut manifesténtur ópera eius, quia in Deo sunt facta. Como temos visto anteriormente, todo este diálogo tem uma estrutura semipoética, e existem duas perícopes antepostas: a primeira negativa de quem pratica o mal e a segunda de quem pratica a verdade. Ambas têm uma prótase condicional e uma apódose explicada com diferentes razões. A primeira tem como explicação a vergonha de ser censurado pelos homens pela maldade descoberta. A segunda tem como justificação o aplauso divino ao bem realizado. Que significa aletheia? A tradução literal é verdade. Mas estamos no terreno moral e não lógico, e portanto, essa verdade deve ser considerada como retidão, o único procedimento moral que merece o apelativo de verdadeira conduta. Talvez essa correção seja a conformidade entre o pensamento e a ação, sempre fazendo o que dita a consciência, iluminada pela lei.
COMENTÁRIO: Muitos comentaristas pensam que todo este trecho evangélico é um discurso em grande parte inventado pelo evangelista como são os diálogos de Platão. De fato, podemos tirar o capítulo 3 sem que exista uma interrupção no relato evangélico entre os dois capítulos, 2 e 4. Não duvidamos de que houve um encontro de fato entre o mestre da Lei e o Mestre da Misericórdia. Sabemos que a perícope tem como ocasião a expulsão do templo dos mercadores. Mas estranha que Nicodemos tenha visto os sinais de Jesus que apontam para os verdadeiros milagres neste início de sua vida pública. E estranha que na sua primeira visita a Jerusalém Jesus tivesse feito sinais tão prodigiosos como para chamar a atenção de Nicodemos. Talvez tenhamos que retrair esta visita um pouco no tempo. Portanto a maioria aceita um diálogo suposto para dramatizar um ensinamento que não se dirige unicamente a Nicodemos, mas que abrange todo intelectual, especialmente os gnósticos, já combatidos no primeiro capítulo. Não podemos esquecer que estamos no fim do primeiro século e que a doutrina primitiva estava sendo deturpada por gnósticos e docetas, que tinham em comum a afirmação da carne como princípio do mal, oposto ao espírito, e a busca incansável da verdade como objetivo de purificação e salvação. O problema aqui é também a salvação e os meios necessários para a mesma. Nicodemos faz três perguntas que Jesus responde de modo categórico com em verdade, em verdade te digo. A resposta de Jesus implica um nascimento no Espírito, certamente aludindo ao batismo, e se apresenta como o único Mestre da Verdade, porque ele veio do Alto (13) e fala do que pode dar testemunho (11). Há uma certa ironia em Jesus ao declarar se não credes nas coisas da terra, como ireis [notar o plural] acreditar quando vos falar das coisas do céu (12)? Divagações à parte, este trecho, como temos visto, é uma lição magistral sobre a Salvação, o Salvador verdadeiro, o ato em que isto se realiza e a maneira de como os homens aceitam a Verdade oferecida por Deus. A comparação com o AT da antiga serpente, é ilustrativa de como se realizaram os planos de Deus, tendo como bandeira e sacrifício do Unigênito. Toda esta parte pode ser autêntica explicação de Jesus. O último comentário parece ser próprio do evangelista, explicando como os homens reagem a esta magnanimidade divina não aceitando a sua oferta porque as obras que realizam não são as que correspondem aos filhos da luz, que precisamente eram assim os que se chamavam os gnósticos. Os intelectuais da época estavam representados pelo mestre Nicodemos. Quais são os gnósticos do dia de hoje? Veremos nas pistas:
PISTAS:
1) As perguntas de Nicodemos são tão atuais como na sua época: Se realmente os sinais que se atribuem nos evangelhos são verdadeiros, quem é esse Jesus que necessariamente encontramos no caminho de nossa vida? Tem ele a solução de nossas perguntas e de nossos problemas, ou esperamos um outro, como perguntou João (Mt 11, 3).
2) Quais são os gnósticos modernos? Os que ainda buscam a Verdade e se dizem filhos da luz; os que deixam a razão como última luz de sua vida e a natureza como único campo de investigação. Por isso, sua reposta diante dos sinais do alto é o ceticismo, porque não é conforme à razão, ou deve ter uma explicação que agora não sabemos.
3) Entre os modernos gnósticos que seguem os passos dos antigos gregos que andam em busca da sabedoria (1 Cor 1, 22) estão os maçons. Seu deus é o deus da Teosofia, não o Deus da Teologia. Expliquemos: teósofo [de theós=deus e sofós=sábio] é o homem que tem como deus o deus da filosofia, o deus da razão, compreensível, encontrado conforme ao que pensa e pretende, ou seja, um deus conveniente e submisso às necessidades e limites da razão humana. Não é o Deus da Teologia [literalmente Deus do logos, da palavra] o Deus que se revelou em sua palavra e principalmente em sua Palavra [Logos] encarnada. Este é o Deus da fé, o Deus que confunde os argumentos humanos, precisamente com a loucura da cruz, na qual vemos o Poder e a Sabedoria de Deus como diz Paulo (1 Cor 1, 24). A diferença entre os maçons e os católicos verdadeiros é que eles buscam a verdade e nós vivemos a Verdade.
4) Os altos graus da maçonaria que é chamada invisível respondem a uma influência marcante de Helena Petrova Blavatsky [HPB] indiscutível rainha do esoterismo e que é considerada mãe de três correntes atuais de pensamento: A Sociedade Teosófica, a seita New Age  e a Internacional Socialista. Para a seita New Age, ela valeu-se da principal discípula: Alice Bailey. Para a Internaional Socialista, da segunda discípula, Annie Besant, presidenta da Sociedade Teosófica e iniciada na maçonaria feminina, membros da maçonaria de adoção antes de criar maçonaria própria, feita através da Sociedade Fabiana [de Quinto Fábio Máximo, o Cunctator, contemporizador]. Sobre New Age, podemos afirmar que é um novo modo de praticar a gnose, que definiu o Papa João Paulo II como postura do espírito que em nome de um profundo conhecimento de Deus, acaba por tergiversar sua Palavra, substituindo-a por palavras que são unicamente humanas.
5) Cuidado! Um dos autores mais vendidos e típico do New Age é  Paulo Coelho               (Maçonaria Invisível de RC. pg 622). Eis uma citação de João Paulo II: Questão à parte é o renascimento das antigas ideias gnósticas na forma chamada de New Age… A gnose não tem desaparecido nunca do âmbito do cristianismo, mas convivido sempre com ele sob as formas de correntes filosóficas, mais a miúdo com modalidades religiosas e para-religiosas, com uma decida, embora às vezes, não declarada divergência, com o que é essencialmente cristão. {Nota: pessoalmente eu tenho recebido junto com um jornal maçônico convites para entrar no teosofismo}
6) Sejamos sinceros. Escolhamos a loucura da cruz e deixemos que o poder e a sabedoria de Deus domine a nossa fraqueza para se tornar nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção como nos escreve Paulo (1 Cor 1, 30). Pessoalmente nas minhas conversas com os maçons que aduzem como argumento religioso a seu favor a crença em Deus, eu arguo com duas interrogantes: é um deus pessoal que se revela ou é um Deus que se manifestou em Jesus? Diante disso eu não tenho recebido reposta alguma.